texto publicado na Humana Online a 4 de Janeiro de 2006.

Há poucas semanas, em entrevista, confidenciava-me Daniel Dayan, mestre do pensamento sobre as imagens:

 – “O problema com o Iraque é que todas as narrativas entraram em colapso: a narrativa do Império versus Colonizado, a narrativa do Ditador versus Libertadores, a narrativa da Guerra Civil, por aí fora. Só quando formos capazes de encontrar a Narrativa do Iraque, só aí, estaremos verdadeiramente no Século XXI”.

A ideia vestida de frase – amplamente interrogativa – é uma profunda chave para pensar as execuções de Saddam Hussein.

Seria sinal claro de civilização e do quanto a equação Demos (Povo) + Kratos (Poder) ainda se revele vívida, se a esfera pública fosse capaz de debater, antes de mais, o pano de fundo: a legitimidade das sentenças de morte e, com precisão honesta, a legitimidade desta sentença de morte.

Aí, a primeira execução mediática com a naturalização da indiferença: como que se ouviu nas redacções “por quê sobrevalorizar informativamente a execução, e logo em quadra festiva, dando-lhe debate, se até estava marcada com anúncio prévio?”. Assim vamos de jornalismo em Portugal. Nada se ouviu, leu, viu de analítico. Não seria essa uma das pistas para a Narrativa do Iraque, de que fala Dayan?

Ver, vimos, desdobradas ao limite da náusea, as imagens, ao ponto de não ser já necessário apontar quais. Elas habitam-nos e apontam na nossa direcção. E acusam silenciosamente, sussurram: a História é muito mais suja do que a iluminada por qualquer conveniente cronologia. Tanto mais suja ao tratar-se da morte física multiplicada em mortes televisionadas e na segunda execução: a naturalização do cadáver difundido.

E, apesar disso, as imagens transbordantes, o excesso e a brutalidade faminta sugerem um oposto: Com que versão higiénica, redentora e oficial ficaríamos da História sem a devassa ética permitida por um só telemóvel na hora da morte do ditador?

É aí que todas as nossas afirmações se transformam na nossa própria condenação democrática: de como tínhamos direito a saber, a ver, a escrutinar com todos os dados e a condenarmos, de um só juízo, o executado e os executores. Mito espantoso do homem-olho.

A execução de Saddam deixa claro que a História sempre tem corpo de Jano, o deus romano feito de passado e futuro numa só cara. E assim, a execução de Saddam, ainda que se veja empurrada pela cronologia a metaforizar dois gestos para o Iraque – o fim de um tempo e a abertura de um outro – fá-lo pelo resgate, não de um futuro possível, mas de um passado repetido na barbárie. A morte do tirano Hussein não traz a magistratura da dignidade, mas um truísmo não justo, mas justiceiro: ditadura paga com ditadura, violência respondida com violência. Em que ruas se esconde a Narrativa de Dayan?

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