texto publicado na Humana Online a 11 de Dezembro de 2006.

Alpha Oumar Konaré trouxe, na passada semana, África às palavras públicas portuguesas.

O presidente da Comissão da União Africana – e ex-chefe de Estado do Mali – frequente exemplo académico da boa governação africana, vestido pela imagem do intelectual democrata pan-africanista, veio a Lisboa para diplomaticar contactos.

O motivo pôde ler-se na escrita das agências noticiosas: “retomar o diálogo Europa-África é uma das prioridades do programa comum das presidências da União Europeia a exercer pela Alemanha, Eslovénia e Portugal, nos próximos 18 meses”.

Sobre o Sudão, e o tão proibitivo silêncio sobre Darfur, Konaré – ele que, em 1992, ao tornar-se o primeiro eleito pela democracia Mali, sabe o que é ver um país depois das armas – emprestou a gentil astúcia às palavras: “somos a favor de que África assuma o seu dever de não indiferença”.

Deu, pois, lição de pós-colonialismo: “os africanos são adultos e conhecem o caminho para Pequim e Nova Deli. Já não precisam de intermediários”.

Daí que a pergunta aos europeístas dos bureaus possa soar armadilhada: Retomar o diálogo, como quem repara por instantânea decisão um curto-circuito de décadas? Quanto vale uma Cimeira?

Konaré terá mais claro do que ninguém e muito mais claro do que os Negócios Estrangeiros europeus que o sazonal interesse – por África, como por Darfur – não será mais do que um político, higiénico e tardio lavar de alma, inevitavelmente precedido por sangue e vidas estilhaçadas. Saberá ainda que o silêncio é maior homicida que o desacerto político: o segundo corrige-se, o primeiro é a negação da realidade.

Quanto vale a vida de um sudanês na balança das agendas europeístas? Aprendeu-se a lição do Ruanda para que seja desaprendida no Sudão?

Não deixou de palpitar, em Outubro, o alarde estridente da diplomacia fotográfica do Presidente da Comissão Europeia de visita ao Sudão: José Manuel Durão Barroso não terá realizado que ao querer mostrar-se à imprensa de saco de farinha às costas, viu-se facilmente duplicado na Ética. Assumiu, sem desejar, toda uma culpa irreversível: a de um diálogo ora vertido na missão do homem sensível, ora quebrado pelo homem amarrado à engrenagem. Metáfora para um continente raptado.

 

 

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