janeiro 2007


texto publicado na Humana Online a 4 de Janeiro de 2006.

Há poucas semanas, em entrevista, confidenciava-me Daniel Dayan, mestre do pensamento sobre as imagens:

 – “O problema com o Iraque é que todas as narrativas entraram em colapso: a narrativa do Império versus Colonizado, a narrativa do Ditador versus Libertadores, a narrativa da Guerra Civil, por aí fora. Só quando formos capazes de encontrar a Narrativa do Iraque, só aí, estaremos verdadeiramente no Século XXI”.

A ideia vestida de frase – amplamente interrogativa – é uma profunda chave para pensar as execuções de Saddam Hussein.

Seria sinal claro de civilização e do quanto a equação Demos (Povo) + Kratos (Poder) ainda se revele vívida, se a esfera pública fosse capaz de debater, antes de mais, o pano de fundo: a legitimidade das sentenças de morte e, com precisão honesta, a legitimidade desta sentença de morte.

Aí, a primeira execução mediática com a naturalização da indiferença: como que se ouviu nas redacções “por quê sobrevalorizar informativamente a execução, e logo em quadra festiva, dando-lhe debate, se até estava marcada com anúncio prévio?”. Assim vamos de jornalismo em Portugal. Nada se ouviu, leu, viu de analítico. Não seria essa uma das pistas para a Narrativa do Iraque, de que fala Dayan?

Ver, vimos, desdobradas ao limite da náusea, as imagens, ao ponto de não ser já necessário apontar quais. Elas habitam-nos e apontam na nossa direcção. E acusam silenciosamente, sussurram: a História é muito mais suja do que a iluminada por qualquer conveniente cronologia. Tanto mais suja ao tratar-se da morte física multiplicada em mortes televisionadas e na segunda execução: a naturalização do cadáver difundido.

E, apesar disso, as imagens transbordantes, o excesso e a brutalidade faminta sugerem um oposto: Com que versão higiénica, redentora e oficial ficaríamos da História sem a devassa ética permitida por um só telemóvel na hora da morte do ditador?

É aí que todas as nossas afirmações se transformam na nossa própria condenação democrática: de como tínhamos direito a saber, a ver, a escrutinar com todos os dados e a condenarmos, de um só juízo, o executado e os executores. Mito espantoso do homem-olho.

A execução de Saddam deixa claro que a História sempre tem corpo de Jano, o deus romano feito de passado e futuro numa só cara. E assim, a execução de Saddam, ainda que se veja empurrada pela cronologia a metaforizar dois gestos para o Iraque – o fim de um tempo e a abertura de um outro – fá-lo pelo resgate, não de um futuro possível, mas de um passado repetido na barbárie. A morte do tirano Hussein não traz a magistratura da dignidade, mas um truísmo não justo, mas justiceiro: ditadura paga com ditadura, violência respondida com violência. Em que ruas se esconde a Narrativa de Dayan?

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texto publicado na Humana Online a 18 de Dezembro de 2006.

A Faixa: trezentos e setenta quilómetros quadrados; o Alentejo português, na sua solidão, só ele, repousa em mais de trinta mil. Talvez por ter essa atrocidade tão brutalmente clara em mente, escrevesse em 1976, Yves Lacoste: a geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra.

A sentença é tanto mais atroz, tanto mais inquieta ou – convenhamos – paralisante quando a geografia é a da, mais histórica que todas, Faixa de Gaza.

Atravessou o mandato britânico, e a Guerra de 48-49, para que a ingratidão histórica a convocasse para a mais dura das provas: ser, em simultâneo desafio, o reduto doloroso de uma população composta por mais de três quartos de refugiados e forja, em perpétuo renascimento, do nacionalismo palestiniano.

Nessa condição de Jano, um olho no passado, outro no futuro, é chamada a intervir diariamente no desalinhamento das notícias. O motivo é tragicamente repetível: Juiz do Hamas assassinado na Faixa de Gaza, Hamas acusa Fatah, Cessar-fogo na Faixa de Gaza violado mais uma vez, Supremo Tribunal de Israel justifica assassínios selectivos, vice-ministro israelita lamenta falhanço do ataque a primeiro-ministro palestiniano.

Atravessados insistentemente pela luta armada, assistiram, no início do ano que agora acaba, à tão planeadíssima como obscura nas intenções retirada dos colonatos judaicos. Os palestinianos de Gaza são agora, uma vez mais, confrontados com uma outra espécie selecta de colonização: a da mitologia de resistência que os habita e cerca, e ora os une, ora os antagoniza com os desumanos uniformes do fratricídio.

Transformada numa prisão territorial – o Alcatraz de Israel, assim lhe chamou Nahum Barnea – Gaza é como que furiosamente empurrada para o uso jihadista. Por estes dias, carrascos e vítimas da violenta sobrevivência repetem Lacoste: a geografia, isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra. Ela, tão viúva, que nos corrompe.

texto publicado na Humana Online a 11 de Dezembro de 2006.

Alpha Oumar Konaré trouxe, na passada semana, África às palavras públicas portuguesas.

O presidente da Comissão da União Africana – e ex-chefe de Estado do Mali – frequente exemplo académico da boa governação africana, vestido pela imagem do intelectual democrata pan-africanista, veio a Lisboa para diplomaticar contactos.

O motivo pôde ler-se na escrita das agências noticiosas: “retomar o diálogo Europa-África é uma das prioridades do programa comum das presidências da União Europeia a exercer pela Alemanha, Eslovénia e Portugal, nos próximos 18 meses”.

Sobre o Sudão, e o tão proibitivo silêncio sobre Darfur, Konaré – ele que, em 1992, ao tornar-se o primeiro eleito pela democracia Mali, sabe o que é ver um país depois das armas – emprestou a gentil astúcia às palavras: “somos a favor de que África assuma o seu dever de não indiferença”.

Deu, pois, lição de pós-colonialismo: “os africanos são adultos e conhecem o caminho para Pequim e Nova Deli. Já não precisam de intermediários”.

Daí que a pergunta aos europeístas dos bureaus possa soar armadilhada: Retomar o diálogo, como quem repara por instantânea decisão um curto-circuito de décadas? Quanto vale uma Cimeira?

Konaré terá mais claro do que ninguém e muito mais claro do que os Negócios Estrangeiros europeus que o sazonal interesse – por África, como por Darfur – não será mais do que um político, higiénico e tardio lavar de alma, inevitavelmente precedido por sangue e vidas estilhaçadas. Saberá ainda que o silêncio é maior homicida que o desacerto político: o segundo corrige-se, o primeiro é a negação da realidade.

Quanto vale a vida de um sudanês na balança das agendas europeístas? Aprendeu-se a lição do Ruanda para que seja desaprendida no Sudão?

Não deixou de palpitar, em Outubro, o alarde estridente da diplomacia fotográfica do Presidente da Comissão Europeia de visita ao Sudão: José Manuel Durão Barroso não terá realizado que ao querer mostrar-se à imprensa de saco de farinha às costas, viu-se facilmente duplicado na Ética. Assumiu, sem desejar, toda uma culpa irreversível: a de um diálogo ora vertido na missão do homem sensível, ora quebrado pelo homem amarrado à engrenagem. Metáfora para um continente raptado.

 

 

Desde Dezembro que colabora com o projecto Humana Online, uma publicação electrónica da organização não-governamental Humana Global. Deixo aqui, de seguida, os três textos entretanto publicados.

Para breve, a publicação dos artigos temáticos.